Lailson Lima sendo entrevistado para o Primecast Normas regulamentadoras e segurança no trabalho.

Como as empresas podem atuar na prevenção dos riscos psicossociais?

A saúde mental no trabalho tornou-se parte essencial da gestão de Saúde e Segurança do Trabalho, pois problemas como burnout, ansiedade, depressão, assédio, discriminação, sobrecarga e falta de reconhecimento afetam tanto os trabalhadores quanto os resultados das empresas.

Embora tenha ganhado maior visibilidade recentemente, a preocupação com os riscos psicossociais não é nova. Normas internacionais, como a ISO 45003, e mudanças na legislação brasileira, especialmente na NR-1, reforçam a necessidade de identificar esses fatores e agir de forma preventiva.

Mais do que tratar o adoecimento depois que ele ocorre, as empresas devem compreender as causas relacionadas à organização do trabalho e criar condições para reduzir os riscos, promover o bem-estar e evitar a repetição dos problemas.

O que são os riscos psicossociais relacionados ao trabalho?

Os riscos psicossociais estão relacionados a aspectos da organização, gestão e relações de trabalho que podem prejudicar a saúde e o bem-estar dos trabalhadores.

Confira o podcast completo: Primecast #03 com Lailson Lima📋Descubra Tudo Sobre NRs, desde a importância até aplicação das normas

Eles podem estar presentes, por exemplo, em situações de sobrecarga, pressão excessiva, falta de clareza sobre responsabilidades, ausência de reconhecimento, conflitos interpessoais, assédio e outras formas de violência ou discriminação.

Além disso, determinadas situações observadas no ambiente profissional refletem problemas sociais mais amplos. Racismo, machismo e violência contra a mulher, por exemplo, também podem se manifestar nas relações de trabalho e precisam ser considerados pelas organizações em suas estratégias de prevenção.

Por esse motivo, gerenciar riscos psicossociais não significa simplesmente oferecer suporte individual aos trabalhadores que já apresentam algum problema de saúde mental. É necessário avaliar também como o trabalho está organizado e quais condições podem estar contribuindo para o adoecimento.

Qual é o papel das lideranças na prevenção dos riscos psicossociais?

A prevenção precisa envolver todos os níveis de liderança da organização, desde a alta administração até os gestores responsáveis pelas equipes e operações diárias. Isso acontece porque muitos fatores psicossociais estão diretamente relacionados à maneira como o trabalho é organizado, distribuído, acompanhado e reconhecido.

“Quando eu falo da liderança, eu falo, desde o CEO as lideranças operacionais. A gente vai precisar de letramento sobre o que que é isso [riscos psicossociais], sobre o que que é burnout, sobre o que é saúde mental, sobre o que bem estar.”

Lailson Lima, especialista em segurança do trabalho, no Primecast #3

Consequentemente, não basta delegar o assunto exclusivamente ao RH, à área de SST ou aos profissionais de saúde. Os gestores também precisam compreender conceitos relacionados à saúde mental e reconhecer situações que podem indicar problemas na organização do trabalho.

Esse processo passa pelo desenvolvimento de conhecimento sobre temas como:

  • Riscos psicossociais;
  • Burnout;
  • Saúde mental e bem-estar;
  • Assédio e violência no trabalho;
  • Sobrecarga e organização das atividades;
  • Reconhecimento profissional;
  • Segurança psicológica.

O chamado letramento das lideranças ajuda a transformar esses conceitos em questões concretas de gestão. Assim, a empresa passa a observar não somente o desempenho dos trabalhadores, mas também as condições nas quais eles atuam.

Referências que ajudam no gerenciamento dos riscos psicossociais

A atenção aos riscos psicossociais deve ser compreendida dentro de um movimento mais amplo de evolução da Saúde e Segurança do Trabalho. Ao longo dos últimos anos, diferentes iniciativas nacionais e internacionais passaram a dar maior destaque à saúde mental e às condições psicossociais relacionadas ao trabalho.

Especialista SST lendo as normas regulamentadoras para saber qual irá se aplicar na empresa.

No Brasil, esse movimento também aparece nas mudanças promovidas nas Normas Regulamentadoras e em outros instrumentos relacionados à proteção dos trabalhadores.

ISO 45003

Publicada em 2021, a ISO 45003 trouxe uma referência internacional específica para a gestão dos riscos psicossociais relacionados ao trabalho.

A norma está associada aos sistemas de gestão de saúde e segurança ocupacional e apresenta diretrizes para que as organizações possam reconhecer perigos psicossociais, avaliar os riscos existentes e desenvolver medidas para controlá-los.

Sua importância está justamente em transformar um assunto que muitas vezes parece subjetivo em um tema que pode ser incorporado aos processos de gestão da organização.

“No ano de 2021, nasce uma norma específica que é a ISO 45003, uma norma internacional que fala exatamente sobre esse tema, sobre como fazer o gerenciamento dos riscos psicossociais relacionados ao trabalho. Então não tem como você, como empregador chegar para mim e falar: “Ah, não sei como fazer”. Tá lá, é um passo a passo para fazer o gerenciamento.”

Lailson Lima, especialista em segurança do trabalho, no Primecast #3

Dessa forma, a empresa pode estruturar ações para compreender quais fatores relacionados ao trabalho estão afetando seus profissionais e, principalmente, estabelecer medidas preventivas. Entretanto, nenhuma metodologia funciona de maneira isolada. Para que o gerenciamento seja efetivo, o comprometimento da liderança torna-se indispensável.

Nova NR-01

A atualização da NR-1 que incluiu de forma mais explícita os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho foi publicada em 2024, mas só entrou em vigor em 2026.

A NR-1 estabelece as disposições gerais e o gerenciamento de riscos ocupacionais que devem ser observados pelas organizações. A norma prevê que as empresas identifiquem os perigos existentes no ambiente de trabalho, avaliem os riscos ocupacionais e adotem medidas de prevenção e controle para proteger a saúde e a segurança dos trabalhadores.

Com a atualização, os riscos psicossociais relacionados à organização do trabalho também passaram a ser considerados no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Isso inclui situações como sobrecarga, assédio, violência, falta de autonomia, pressão excessiva, conflitos e ausência de apoio ou reconhecimento.

Como integrar os riscos psicossociais ao PGR?

O Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) é uma das principais ferramentas para estruturar a prevenção dentro das organizações. Por isso, os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho não devem ser tratados como um assunto desconectado da gestão de SST. Eles precisam fazer parte da análise das condições reais às quais os trabalhadores estão expostos.

Pessoa segurando arquivos do pgr.

O primeiro passo é identificar os perigos e fatores relacionados à organização do trabalho. Depois, a empresa precisa avaliar os riscos e definir medidas de prevenção compatíveis com os problemas encontrados.

Nesse processo, é importante não depender de uma única fonte de informação. A própria organização possui diferentes indicadores que podem ajudar a revelar problemas que, à primeira vista, não seriam facilmente percebidos.

Quais indicadores ajudam a identificar problemas psicossociais?

Algumas informações que a empresa já produz no cotidiano podem funcionar como importantes sinais de alerta. Os afastamentos relacionados à saúde mental são um exemplo. Quando determinados setores apresentam recorrência de afastamentos ou outros problemas, vale investigar se existem características da organização do trabalho que podem estar relacionadas à situação.

As entrevistas de desligamento também oferecem informações valiosas. Muitas vezes, o profissional que está deixando a organização sente maior liberdade para relatar conflitos, problemas de liderança, ausência de reconhecimento, sobrecarga ou outras dificuldades enfrentadas durante sua permanência.

Profissionais da CIPA e do SESMT apresentam dados de segurança do trabalho para colaboradores durante reunião

Da mesma maneira, indicadores como rotatividade, absenteísmo, queixas internas e relatos de trabalhadores podem contribuir para a análise.

O objetivo não é interpretar cada dado isoladamente como prova da existência de um risco, mas cruzar diferentes informações para compreender padrões e identificar onde uma investigação mais aprofundada pode ser necessária.

O canal de denúncias como ferramenta de prevenção

O canal de denúncias também pode funcionar como uma fonte relevante para a gestão dos riscos psicossociais. Por meio dele, trabalhadores podem relatar situações de assédio, discriminação, violência e outros comportamentos inadequados.

No entanto, simplesmente disponibilizar um canal não é suficiente. Os profissionais precisam confiar no processo e sentir que podem fazer um relato sem sofrer retaliações.

“O canal de denúncia é um é um indicador tremendo pra gente trabalhar. Eu recomendo que seja um canal de denúncia externo. Que o trabalhador sinta confiança e segurança psicológica para ir até o canal de denúncia, porque ele sabe que o problema dele vai ser resolvido.”

Lailson Lima, especialista em segurança do trabalho, no Primecast #3

Por isso, mecanismos independentes e imparciais podem contribuir para aumentar a confiança e a segurança psicológica dos trabalhadores. Além disso, a empresa precisa demonstrar que as denúncias são analisadas, investigadas e tratadas adequadamente.

Qual é o custo do adoecimento mental para as empresas?

Os impactos dos riscos psicossociais não se limitam ao trabalhador afetado. Quando um profissional precisa se afastar ou deixa a organização, a empresa também perde conhecimento, experiência e produtividade, além de precisar lidar com os custos e desafios relacionados à sua substituição.

A contratação de uma nova pessoa envolve recrutamento, seleção, integração e treinamento. Também existe um período até que o novo trabalhador desenvolva o conhecimento necessário para executar suas atividades com a mesma autonomia de alguém que ocupava aquela função há anos. Em determinados cargos, esse conhecimento acumulado pode ser particularmente difícil de substituir.

Por isso, tratar trabalhadores como peças facilmente intercambiáveis pode gerar um custo muito maior do que a organização imagina. Em um mercado no qual determinadas áreas enfrentam dificuldades para encontrar profissionais qualificados, cuidar da saúde mental e promover condições adequadas de trabalho torna-se uma estratégia importante para preservar talentos e reduzir perdas.

Cuidar do trabalhador também significa estabelecer limites nas relações com clientes

A prevenção dos riscos psicossociais não acontece somente dentro das relações entre gestores e equipes. Em algumas atividades, os trabalhadores também estão expostos diretamente ao comportamento de clientes, fornecedores e outras pessoas externas à organização.

“O cliente não vem em primeiro lugar. Em primeiro lugar vem o seu colaborador, porque ele que vai cuidar do seu cliente. Então, é burrice você deixar o cliente ofender o seu trabalhador, xingar o seu trabalhador, isso e tudo mais, adoecer o seu trabalhador e você ainda ficar do lado do cliente.”

Lailson Lima, especialista em segurança do trabalho, no Primecast #3

Quando um cliente humilha, ameaça, discrimina ou agride verbalmente um profissional, por exemplo, a empresa precisa estabelecer limites.

A ideia de que o cliente deve ser atendido a qualquer custo pode criar situações em que o trabalhador permanece exposto a comportamentos inadequados simplesmente para preservar uma relação comercial.

Entretanto, proteger o profissional também faz parte da construção de um ambiente de trabalho saudável. Além de ser uma questão relacionada à saúde e ao bem-estar, essa postura contribui para fortalecer a confiança entre trabalhadores e organização. Quando as pessoas percebem que a empresa estabelece limites diante de situações abusivas, a sensação de segurança tende a aumentar.

Afinal, quando devo começar a prevenção dos riscos psicossociais?

Não é necessário esperar que a empresa tenha uma estrutura perfeita para iniciar esse trabalho. A prevenção pode começar de forma progressiva, desde que exista comprometimento real da organização.

Entre as primeiras medidas, estão a capacitação das lideranças, a inclusão dos fatores psicossociais na gestão de riscos, a análise da organização do trabalho e a criação de mecanismos confiáveis para que os trabalhadores possam relatar problemas.

“Investir em Segurança do Trabalho deve começar desde o momento em que uma empresa é idealizada ou inicia suas atividades. Isso porque a prevenção não é um custo adicional, mas sim uma base estrutural para o funcionamento seguro e sustentável de qualquer organização.”

Prime Cursos

Também é importante acompanhar indicadores, investigar afastamentos e desligamentos, avaliar situações de sobrecarga e revisar continuamente as medidas implementadas.

O ponto central é mudar a lógica de atuação. Em vez de esperar que o trabalhador adoeça para encaminhá-lo ao atendimento profissional, a empresa precisa perguntar o que pode ser feito para diminuir a probabilidade de esse adoecimento ocorrer por fatores relacionados ao trabalho.

Grupo de colaboradores participa de um treinamento sobre segurança no trabalho em uma sala de reuniões.

A prevenção dos riscos psicossociais exige que as empresas deixem de agir apenas depois que o adoecimento acontece. Identificar fatores como sobrecarga, assédio, falta de reconhecimento, conflitos e ausência de apoio permite que a organização atue sobre as causas dos problemas e construa um ambiente de trabalho mais seguro e saudável.

Mais do que cumprir normas, cuidar da saúde mental deve fazer parte da cultura e da estratégia da empresa. Ao investir em lideranças preparadas, canais confiáveis, acompanhamento de indicadores e melhoria contínua da organização do trabalho, a empresa protege seus profissionais, reduz impactos operacionais e fortalece a retenção de talentos.

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Compreender as Normas Regulamentadoras é essencial para prevenir acidentes, identificar riscos e promover ambientes de trabalho mais seguros e saudáveis. Esse conhecimento fortalece a atuação profissional e contribui diretamente para a redução de ocorrências e para a melhoria contínua das práticas de Segurança do Trabalho.

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