Lailson Lima sendo entrevistado para o Primecast Normas regulamentadoras e segurança no trabalho.

Saúde mental no trabalho: O que as empresas precisam fazer?

A saúde mental no ambiente de trabalho ganhou ainda mais espaço nas discussões sobre saúde e segurança ocupacional. Para as empresas, isso significa olhar além de ações pontuais de bem-estar e avaliar de forma mais ampla como o próprio trabalho está organizado.

Metas excessivas, jornadas prolongadas, horas extras frequentes, falta de reconhecimento, modelos de remuneração que geram pressão e isolamento são alguns dos fatores que precisam entrar nessa análise. Afinal, oferecer benefícios aos funcionários pode ser positivo, mas não substitui a identificação e o gerenciamento dos riscos presentes na rotina de trabalho.

Essa lógica vale tanto para grandes organizações quanto para pequenos negócios. O que muda é a realidade de cada empresa, os recursos disponíveis e a maneira como as medidas podem ser implementadas.

A gestão dos riscos psicossociais muda conforme o porte da empresa?

Os princípios de prevenção e gerenciamento dos riscos relacionados ao trabalho não devem ser entendidos como uma preocupação exclusiva das grandes organizações. Empresas de diferentes portes precisam avaliar as condições às quais seus trabalhadores estão expostos e adotar medidas para proteger a saúde e a segurança no ambiente profissional.

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Naturalmente, uma companhia com milhares de trabalhadores possui estrutura, recursos e desafios diferentes de uma empresa familiar com dez funcionários. Enquanto as maiores organizações podem contar com equipes especializadas e processos mais estruturados, os pequenos negócios geralmente precisam adaptar as ações à sua realidade, aos recursos disponíveis e às características das atividades realizadas.

No entanto, a lógica de prevenção permanece a mesma em ambos os casos: identificar os riscos, avaliar seus impactos e implementar medidas de controle. O que muda é a maneira como cada organização poderá colocar esse processo em prática, considerando seu porte, sua estrutura e as condições específicas do trabalho.

O que as empresas devem fazer para cuidar da saúde mental no trabalho?

Um dos primeiros passos é observar a organização do trabalho. Isso envolve compreender como as tarefas são distribuídas, quais cobranças fazem parte da rotina, quanto tempo os trabalhadores permanecem em atividade e de que maneira as metas são estabelecidas.

Em vez de analisar somente se a empresa oferece benefícios ou programas de qualidade de vida, é necessário investigar se as próprias condições de trabalho podem favorecer o surgimento de riscos psicossociais. Por isso, alguns aspectos merecem atenção especial, a seguir, confira os principais.

Avaliar metas, jornadas e sobrecarga de trabalho

Estabelecer metas faz parte da gestão de qualquer negócio. Entretanto, elas precisam ser compatíveis com as condições reais de trabalho e não podem exigir dos profissionais um nível de esforço difícil de sustentar continuamente.

Homem cercado por pilhas de documentos aparentando estar sobrecarregado.

Uma empresa pode alcançar resultados financeiros expressivos em determinado período, mas, ao mesmo tempo, enfrentar aumento de afastamentos, horas extras, rotatividade e outros problemas relacionados às condições de trabalho.

Por isso, não basta analisar apenas o resultado final. É necessário avaliar também como ele está sendo alcançado. A quantidade de trabalho, a frequência das horas extras, as jornadas praticadas e o nível de cobrança devem fazer parte dessa análise. Dessa forma, a empresa pode estabelecer objetivos que sejam viáveis para o negócio sem desconsiderar a saúde dos trabalhadores.

Observar os critérios de reconhecimento e remuneração

As formas de reconhecimento também podem influenciar a relação dos profissionais com o trabalho. Empresas que utilizam bônus, comissões ou outras modalidades de remuneração vinculadas ao cumprimento de metas, por exemplo, precisam avaliar como esses mecanismos são estruturados e quais efeitos podem produzir.

Quando uma parcela importante da renda depende constantemente de determinado resultado, não alcançar a meta pode gerar insegurança financeira e aumentar a pressão sobre o trabalhador. Consequentemente, preocupações relacionadas ao pagamento das despesas pessoais podem interferir no descanso, na concentração e no próprio desempenho profissional.

Isso não significa que sistemas de bonificação devam ser eliminados. O ponto é avaliar se os critérios são justos, alcançáveis e compatíveis com uma organização saudável do trabalho.

Prevenir o isolamento, inclusive no home office

Outro aspecto que merece atenção é o isolamento profissional, especialmente diante da expansão dos modelos remoto e híbrido.

Mulher concentrada olhando tela de notebook.

No home office, a empresa precisa observar como os trabalhadores permanecem integrados às equipes, como ocorre a comunicação com as lideranças e se existem oportunidades adequadas de interação.

Reuniões bem planejadas, canais de comunicação acessíveis e acompanhamento das lideranças podem ajudar nesse processo. Entretanto, essas ações devem ser pensadas de acordo com a realidade da organização e das equipes.

O objetivo não é simplesmente aumentar a quantidade de reuniões, mas identificar situações em que o isolamento possa prejudicar as relações profissionais e o bem-estar dos trabalhadores.

Entender que benefícios de bem-estar são complementares

Academia, atividades de relaxamento, programas de qualidade de vida e outros benefícios podem contribuir para o bem-estar dos profissionais. Porém, essas iniciativas devem ser entendidas como complementares.

Se uma empresa oferece benefícios relacionados à saúde, mas mantém jornadas excessivas, metas difíceis de alcançar e pressão constante, a origem do problema continua presente.

“Houve um tempo em que o bem-estar corporativo era interpretado apenas como um pacote de iniciativas isoladas de engajamento. Hoje, esse olhar se expande e o cuidado passa a ocupar um papel cada vez mais central na construção de negócios sustentáveis e de longo prazo.”

Você RH

Além disso, existe o risco de transferir para o trabalhador a responsabilidade por situações provocadas pela própria organização do trabalho. Nesse cenário, a empresa passa a atribuir o desgaste à falta de autocuidado individual, em vez de investigar as condições às quais o profissional está submetido.

Portanto, benefícios podem fazer parte da estratégia, mas não substituem a identificação e o gerenciamento dos riscos presentes no ambiente de trabalho.

Existe um modelo de gerenciamento de riscos psicossociais pronto para todas as empresas?

Guias, orientações e instrumentos de avaliação podem ajudar as organizações a estruturar seus processos. Porém, um único modelo dificilmente conseguirá representar todas as situações encontradas no mercado de trabalho.

Uma indústria, um escritório, uma loja e uma pequena empresa familiar possuem rotinas completamente diferentes. Até mesmo organizações pertencentes ao mesmo segmento podem apresentar condições distintas.

Pessoa segurando arquivos do pgr.

Por isso, simplesmente preencher um formulário ou reproduzir um documento pronto não significa que os riscos foram adequadamente avaliados. A empresa precisa conhecer seu ambiente, identificar os fatores presentes na rotina e estabelecer medidas coerentes com sua realidade.

Como grandes empresas podem começar?

Grandes empresas podem começar fazendo um diagnóstico amplo das condições de trabalho e dos principais fatores que podem afetar a saúde mental dos trabalhadores.

Para isso, é importante analisar metas, jornadas, horas extras, volume de tarefas, formas de reconhecimento, modelos de remuneração, relações entre equipes e situações de isolamento. Esse levantamento deve considerar diferentes setores, cargos e unidades, já que os riscos podem variar bastante dentro da mesma organização.

A partir desse diagnóstico, a empresa pode estabelecer prioridades e criar um plano de ação com responsabilidades, prazos e formas de acompanhamento. Também é importante envolver as lideranças, os profissionais de saúde e segurança do trabalho, o RH e os próprios trabalhadores na construção das medidas.

Como pequenas empresas podem começar?

Pequenos negócios podem não ter os mesmos recursos financeiros ou a mesma estrutura de uma grande companhia. Ainda assim, isso não significa que não possam iniciar ações relacionadas à saúde e à segurança dos trabalhadores. O primeiro passo é compreender a própria realidade e identificar quais medidas são prioritárias e possíveis naquele momento. 

“Meu conselho para as empresas pequenas, busquem cases, busquem os bons exemplos, procurem visitar as empresas que estão conseguindo fazer uma boa gestão da segurança do trabalho.”

Lailson Lima, especialista em segurança do trabalho, no Primecast #3

Algumas mudanças podem exigir investimento. No entanto, ações voltadas à prevenção também podem trazer retorno para a própria operação ao contribuir para melhores condições de trabalho e para a redução de problemas relacionados à saúde e à segurança.

Nesse sentido, não é necessário tentar transformar toda a organização de uma única vez. A empresa pode começar com medidas menores e avançar gradualmente.

As empresas podem terceirizar a gestão de saúde e segurança?

Empresas de qualquer porte podem terceirizar atividades relacionadas à saúde e à segurança do trabalho. A contratação de uma consultoria ou assessoria especializada pode ser uma alternativa para organizações que não possuem profissionais ou departamentos internos dedicados ao tema.

Esse apoio pode incluir a avaliação dos riscos ocupacionais, a elaboração e atualização de documentos, a realização de treinamentos e a orientação sobre as medidas de prevenção necessárias. A terceirização também pode ajudar a empresa a organizar seus processos e a cumprir as exigências aplicáveis às suas atividades.

Especialista SST lendo as normas regulamentadoras para saber qual irá se aplicar na empresa.

No entanto, contratar uma empresa especializada não significa transferir integralmente a responsabilidade pela saúde e segurança dos trabalhadores. A organização contratante continua responsável por fornecer informações corretas, acompanhar o trabalho realizado e garantir que as medidas recomendadas sejam efetivamente implementadas.

Por isso, é importante que alguém dentro da empresa acompanhe a prestação do serviço e conheça minimamente os documentos e procedimentos adotados. Sem esse envolvimento, existe o risco de a consultoria produzir materiais genéricos, que não correspondam à realidade do estabelecimento e possam não cumprir adequadamente sua finalidade de prevenir riscos.

Por fim, lembre sempre, a gestão da saúde mental no trabalho começa pela análise das condições reais em que as atividades são realizadas. Ademais, é importante ressaltar que não existe uma solução única para todos os negócios, mas toda organização pode começar com medidas possíveis e avançar gradualmente.

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