Lailson Lima sendo entrevistado para o Primecast Normas regulamentadoras e segurança no trabalho.

Como saber se um problema de saúde mental no trabalho é individual ou organizacional?

Quando uma empresa recebe uma denúncia ou identifica um caso de sofrimento relacionado à saúde mental, é importante avaliar se a situação é pontual ou se indica um problema na organização do trabalho. Um episódio isolado não comprova, por si só, a existência de um problema sistêmico, mas também não deve ser automaticamente tratado como uma questão exclusivamente individual.

A análise precisa considerar o contexto, acompanhar os dados e investigar adequadamente o caso. Diferentes fatores podem influenciar a saúde mental de um trabalhador, incluindo as condições de trabalho, a organização das atividades e questões pessoais. Em alguns casos, esses elementos podem estar relacionados.

Por isso, diferenciar uma exceção de um problema organizacional exige uma avaliação ampla, que pode começar pela análise de dados e avançar, quando necessário, para uma investigação individual conduzida por profissionais especializados.

Como saber se um caso isolado indica um problema na empresa?

A quantidade e a frequência das ocorrências são alguns dos primeiros elementos que ajudam a empresa a compreender o cenário. Uma organização que mantém um canal de denúncias há dez anos e recebe uma única manifestação durante todo esse período enfrenta uma situação diferente daquela que recebe novas denúncias toda semana ou todos os meses.

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Além disso, quando casos semelhantes aparecem repetidamente, há um sinal mais evidente de que pode existir algum fator relacionado à organização do trabalho. Nesse momento, é importante observar onde os episódios acontecem, quais características possuem e se existem elementos em comum.

Por outro lado, uma única denúncia não deve ser descartada por falta de outros registros, pois pode representar uma situação individual ou ser o primeiro indício visível de um problema ainda não identificado.

Ademais, a ausência de ocorrências também precisa ser interpretada com cuidado, porque a falta de denúncias é um dado. Uma empresa que praticamente nunca recebe manifestações pode ter poucos conflitos, mas também pode contar com trabalhadores que desconhecem os canais disponíveis, não confiam no processo ou têm receio de relatar determinadas situações.

Existem outros fatores que ajudam a identificar se é algo isolado ou organizacional?

É importante observar se os casos apresentam características semelhantes, se estão concentrados no mesmo setor, liderança ou atividade e se envolvem condições de trabalho parecidas. Também vale analisar indicadores como afastamentos, rotatividade, absenteísmo, queixas recorrentes e resultados de pesquisas de clima.

Fiscal de segurança do trabalho utilizando colete refletivo enquanto registra informações em uma prancheta

A empresa também deve considerar o histórico das medidas adotadas e a forma como os trabalhadores percebem o ambiente. Se o problema continua mesmo depois de mudanças em processos, metas, jornadas ou lideranças, pode haver um risco organizacional ainda não controlado.

Por outro lado, quando a situação não se repete, não apresenta relação com outros casos e não encontra correspondência nos indicadores da empresa, pode se tratar de uma ocorrência pontual. Ainda assim, essa conclusão deve ser baseada em investigação e evidências, e não apenas na percepção de que o caso parece individual.

Como investigar se o problema está relacionado ao trabalho?

Depois de identificar se é algo isolado ou não, o próximo passo é compreender sua possível origem. Essa análise é especialmente importante quando se trata de saúde mental, porque não existe uma separação absoluta entre aquilo que acontece na vida pessoal e aquilo que acontece no ambiente profissional.

“Nós somos seres humanos e como seres humanos nós somos complexos. Dentro da nossa complexidade não cabe problemas pessoais e problemas do trabalho. São problemas. Não tem vida pessoal. Não tem vida profissional, existe vida e áreas da nossa vida.”

Lailson Lima, especialista em segurança do trabalho, no Primecast #3

Uma pessoa pode enfrentar dificuldades familiares, financeiras ou emocionais que repercutem em seu trabalho. Da mesma maneira, problemas relacionados às atividades profissionais podem afetar seu bem-estar fora da empresa.

Portanto, o fato de um trabalhador apresentar sofrimento psicológico não permite concluir automaticamente que a empresa provocou o problema. Porém, também não permite afirmar que se trata apenas de uma questão pessoal. É justamente por isso que a investigação do nexo causal ganha importância.

O que é nexo causal?

De maneira simplificada, o nexo causal corresponde à relação entre determinado problema de saúde e o trabalho realizado pela pessoa. No caso da saúde mental, a avaliação busca compreender se existe relação entre o sofrimento apresentado pelo trabalhador e suas atividades, condições ou organização do trabalho.

Se essa relação for identificada, a empresa precisa aprofundar a investigação. Afinal, pode existir um fator ocupacional que não afeta somente aquele trabalhador e que precisa ser identificado e controlado.

Por outro lado, a análise também pode indicar que determinado quadro possui relação predominante com fatores externos ao trabalho. Essa conclusão, entretanto, não deve partir de julgamentos do gestor ou de percepções sem embasamento técnico.

“O que é esse bem dito desse nexo causal? É a relação desse problema de saúde mental que essa pessoa tem, que esse funcionário tem com o trabalho que ela executa.”

Lailson Lima, especialista em segurança do trabalho, no Primecast #3

A investigação também é importante para evitar a culpabilização do trabalhador. Em vez de procurar um culpado, a organização deve buscar evidências. Se houver fatores relacionados ao trabalho, eles precisam ser analisados. Se o caso envolver questões individuais que exigem acompanhamento específico, o trabalhador deve ser encaminhado aos profissionais adequados.

Quando o caso precisa de uma avaliação individual?

A engenharia de segurança do trabalho consegue analisar a organização, identificar riscos, avaliar áreas e aprofundar a investigação em grupos de trabalhadores. Entretanto, ela não deve realizar diagnósticos individuais de saúde mental.

Quando é necessário compreender de onde vem o sofrimento, a angústia ou determinada condição apresentada por um trabalhador específico, a avaliação deve ser conduzida por profissionais habilitados.

Dependendo do caso, podem participar desse processo o médico do trabalho, psicólogo, psiquiatra, assistente social ou outros profissionais capacitados. Na medicina e na psicologia, por exemplo, existem ferramentas, métodos de avaliação e testes que podem contribuir para compreender os fatores envolvidos no quadro apresentado pelo trabalhador.

O que fazer caso seja comprovado como algo relacionado ao trabalho?

Se for comprovado que o problema de saúde mental está relacionado ao trabalho, a empresa deve reconhecer essa relação e investigar quais condições contribuíram para o surgimento ou agravamento da situação.

Isso pode envolver a análise da organização das atividades, da carga de trabalho, das relações profissionais, das metas, da liderança, dos episódios de assédio ou de outros fatores psicossociais. O objetivo não deve ser apenas registrar o caso, mas identificar e controlar o risco que pode continuar afetando o trabalhador e outras pessoas da equipe.

“Então, se houver uma relação, opa, eu tô com problema na minha organização do trabalho, eu preciso olhar para isso, eu vou precisar investigar o que está adoecendo ela. Agora, em questão pessoal, havendo investigação e não tendo relação, aí é psicólogo ou psiquiatra. E a gente sai desse paradigma de sempre culpabilizar a vítima.”

Lailson Lima, especialista em segurança do trabalho, no Primecast #3

A partir dessa investigação, a organização precisa definir e implementar medidas corretivas e preventivas. Dependendo da situação, isso pode incluir mudanças nos processos, redistribuição de tarefas, revisão de metas e prazos, capacitação de gestores, melhoria dos canais de comunicação, interrupção de práticas abusivas e acompanhamento das áreas envolvidas.

Também é importante monitorar se as medidas adotadas realmente reduziram o risco, em vez de considerar o problema resolvido apenas porque uma providência foi formalmente registrada.

Como a empresa pode mapear os riscos antes de chegar ao indivíduo?

A investigação não precisa começar diretamente pela situação particular de um trabalhador. Na gestão de saúde e segurança, é possível partir de uma visão ampla da organização e aprofundar a análise gradualmente.

Primeiramente, a empresa pode realizar um diagnóstico geral para compreender onde estão seus principais riscos ocupacionais. A partir dessa visão, torna-se possível identificar áreas que exigem maior atenção e avançar para avaliações mais específicas, como o PGR.

Depois, a análise pode avançar para setores e para grupos de trabalhadores submetidos a condições semelhantes. Nesse contexto, entram os chamados grupos homogêneos de exposição, utilizados para reunir trabalhadores que possuem condições de exposição semelhantes.

Pessoa segurando arquivos do pgr.

A lógica, portanto, parte do geral para o específico. A organização observa inicialmente a empresa como um todo, identifica áreas de atenção, aprofunda a análise nos setores e verifica os grupos potencialmente expostos.

Empresas que já possuem uma gestão de saúde e segurança mais madura tendem a realizar esse processo com maior facilidade, pois contam com históricos, indicadores, procedimentos e profissionais preparados para interpretar as informações. Já empresas menores ou que ainda estão desenvolvendo seus processos podem encontrar mais dificuldades.

Independentemente do nível de maturidade, entretanto, o objetivo é construir progressivamente uma visão mais estruturada dos riscos. Dessa maneira, a empresa deixa de agir somente depois que um problema aparece e passa a desenvolver uma atuação mais preventiva.

Afinal, quando um caso deixa de ser uma exceção?

Não existe um número universal de denúncias ou ocorrências que determine, sozinho, quando uma situação passa a representar um problema organizacional.

Uma denúncia pode ser uma exceção, mas também pode ser o primeiro sinal de uma condição mais ampla. Da mesma forma, dezenas de registros semelhantes, concentrados em uma área ou associados às mesmas condições de trabalho, oferecem indícios muito mais fortes de que existe algo na organização que precisa ser investigado.

Profissionais da CIPA e do SESMT apresentam dados de segurança do trabalho para colaboradores durante reunião

Por isso, a resposta depende da combinação de diferentes informações: frequência das ocorrências, histórico da empresa, características dos casos, áreas envolvidas, condições de trabalho e resultados das investigações.

O mais importante é não partir de conclusões antecipadas. Quando a empresa acompanha dados, possui processos para lidar com denúncias, mapeia seus riscos e recorre aos profissionais adequados quando a análise precisa chegar ao indivíduo, torna-se mais fácil diferenciar uma situação pontual de um problema relacionado à organização do trabalho.

Mais do que determinar rapidamente se a responsabilidade é da empresa ou do trabalhador, uma gestão madura busca compreender o que está acontecendo. Com investigação, dados e acompanhamento adequado, a organização consegue identificar riscos com maior precisão e agir preventivamente antes que situações isoladas se transformem em problemas recorrentes.

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